segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Vida de estrela

Eu já tive umas depressões bravas.
Quis muito me matar.
Fui salvo, em algumas vezes, pela minha loucura.
Em todas as outras, por família e amigos.
Daí fiz uma promessa pras energias toda poderosas que, ao mesmo tempo, esfacelava e me garantia a vida, que se me ajudasse a levantar do buraco onde eu tava - triste, sozinho e suicida -, eu iria me comprometer a virar uma estrela!
Não do rock, nem do cinema, mas do céu mesmo. Eu teria que desenvolver meu brilho, minha luz, além de uma energia descomunal.
Foi uma coisa de doido, um insight psicótico mas tenho certeza de que teve valor, porque não me esqueci e ainda tenho forte a memória dessa promessa/dívida de aprender a dar luz através das energias que gastasse.
Então, em um momento de pouco brilho, eu conheci uma estrelinha caída. Ela não dava conta de acordar cedo, porque tinha mais gosto pela badalação dos sinos noturnos, mas, pobrezinha, ainda era nova demais para entender o universo.
Era uma supernova, aliás, cor de champanhe. Gigante como todas elas.
E ainda não estava preparada para tanta gravidade que exerceria, por tantos planetas que haveriam de orbitá-la ainda.
Então, sua luz se dissipou para tudo quanto era galáxia, enquanto a maior vontade que tinha era de virar buraco negro. Tava ficando densa, escura e pesada, apesar de sua juventude cósmica.
Dava para entender a tristeza. Todos seus raios de luz eram muito puros, tinham calor e luz dignos de um corpo celeste, mas estavam sucumbindo por alguns buracos negros.
De repente, essa estrelinha preguiçosa contraiu um complexo de asteróide: ela se achava pior que poeira cósmica, achava que só prestava para dar calor, que ninguém contemplava o verdadeiro brilho de sua luz e outras coisas absurdas.
Ei, estrelinha - eu disse - gosto do seu brilho e sei que sua luz é linda. Tenho que me proteger da radiação de seus raios, pois meu corpo está viciado no seu calor tão latente!
A estrelinha, logo sorria e brilhava ainda mais, renovando um ciclo louco de fazer praticamente depende a quem recebe suas luzes, e causar desconforto em quem fica na penúria e no eclipse de sua sombra. Você não vai dar conta do sistema solar inteiro a todo momento, sua boba! Você também não tem culpa por quem usou da tua energia pra fazer coisas ruins, então fica tranquila com isso também! Azar deles.
Enfim, preciso retransmitir o recado que veio do compromisso que assumi.
Brilha muito e brilha sempre. Quem tem esse privilégio de ocupar lugar tão importante no espaço raramente lembra da solidão que é ver nossas estrelas-guia tendo que morar tão longe de nossas órbitas. É por isso que vamos nos preparando para sempre emanar o que há dentro de nós a tantos anos luz daqui. É, então, que nosso legado atravessa o infinito e inspira milhões de astros por anos e anos.
Fica calma, estrelinha, muita gente só daria conta do valor do seu brilho, da delícia do seu riso quando as luzes se apagassem. Mas, sempre que se apagam já é certo que, no outro dia, estaremos lá felizes por um novo e iluminado dia!



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Extra Abismo

Extra Abismo é um título que se refere ao estrabismo, à vesguice e ao abismo, ao buraco fundo que ficam entre um ponto e outro da vida.

Quando eu era pequeno, tipo uns quatro, cinco anos aprendi as palavras estrabismo e hipermetropia. Teria que usar lentes cilíndricas acrílicas convergentes. Simpatizei com proparoxítonas. Fiquei distante de palavras mais fáceis.

Há quem diga que o estrabismo resulta de uma divergência entre os pensamentos do pai e da mãe. Então, por terem visões de mundo muito diferentes, a criança deles nasceria com um olho direcionado para cada lado.

Às vezes oposto, às vezes cruzado.

O estrabismo tem duas modalidades: divergente e convergente. A primeira é a dita dos olhos distraídos, enquanto um vê o céu, o outro contempla o mar. Já a segunda é a dos olhos desconfiados. O olho bom olha um lugar, o mau, desconfiado, olha para ele e pergunta - tá olhando o quê?

Eu tenho o segundo tipo. Olho desconfiado.
Sou exemplo vivo de que é necessário deixar o esquerdo livre, olhando para onde for, onde quiser e que o outro olhe para onde ruma o olhar, sem tentar distrair ou regular o horizonte alheio.

Desde criança minha visão pesa. Minhas lentes têm que ser grossas e o preço que pago inclui também o efeito dos olhos gigantes. Odeio esse efeito.

Isso me torna um grande crítico. Cuzão. Além de ficar observando as observações dos outros, ainda fico esmiuçando e colocando lentes de aumento nessas críticas.

Não gosto de ser crítico. Isso tem um quê de antipatia. Odeio antipatia. Sou legal.

Apesar dos olhos cilindro e acrílicamente esbugalhados, sou simpático. Gosto de sorrir, cumprimentar com bom humor, fazer onomatopeias e imitações de vozes. Sou da zoeira e não da desconfiança.