quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Extra Abismo

Extra Abismo é um título que se refere ao estrabismo, à vesguice e ao abismo, ao buraco fundo que ficam entre um ponto e outro da vida.

Quando eu era pequeno, tipo uns quatro, cinco anos aprendi as palavras estrabismo e hipermetropia. Teria que usar lentes cilíndricas acrílicas convergentes. Simpatizei com proparoxítonas. Fiquei distante de palavras mais fáceis.

Há quem diga que o estrabismo resulta de uma divergência entre os pensamentos do pai e da mãe. Então, por terem visões de mundo muito diferentes, a criança deles nasceria com um olho direcionado para cada lado.

Às vezes oposto, às vezes cruzado.

O estrabismo tem duas modalidades: divergente e convergente. A primeira é a dita dos olhos distraídos, enquanto um vê o céu, o outro contempla o mar. Já a segunda é a dos olhos desconfiados. O olho bom olha um lugar, o mau, desconfiado, olha para ele e pergunta - tá olhando o quê?

Eu tenho o segundo tipo. Olho desconfiado.
Sou exemplo vivo de que é necessário deixar o esquerdo livre, olhando para onde for, onde quiser e que o outro olhe para onde ruma o olhar, sem tentar distrair ou regular o horizonte alheio.

Desde criança minha visão pesa. Minhas lentes têm que ser grossas e o preço que pago inclui também o efeito dos olhos gigantes. Odeio esse efeito.

Isso me torna um grande crítico. Cuzão. Além de ficar observando as observações dos outros, ainda fico esmiuçando e colocando lentes de aumento nessas críticas.

Não gosto de ser crítico. Isso tem um quê de antipatia. Odeio antipatia. Sou legal.

Apesar dos olhos cilindro e acrílicamente esbugalhados, sou simpático. Gosto de sorrir, cumprimentar com bom humor, fazer onomatopeias e imitações de vozes. Sou da zoeira e não da desconfiança.